O DILETO AMIGO "DE RANCHO"

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   Quinta-feira, 23, Dia do Aviador, curti fortes emoções marcadas pelo reencontro de pessoas queridas e adolescente paixão indomada. De manhã, varada madrugada de tântalo em inexplicável fúria redatora, dirigi-me à Base Aérea do Galeão por gentil convocação do Cel Malagutti, da FAB, justo recipiendário da Ordem do Mérito Aeronáutico em formatura festiva naquela OM.

    Sou fabiano de berço. Cultor precoce de personagens épicos, ingressei na EPCAr disposto a encetar sibilante carreira de Barão Vermelho nativo, a pilotar caças supersônicos no éter celestial. De fato, os céus dominaram o jogo, pois logo eflúvios divinais me obsequiaram de volta ao vestiário, na instrução de voo do “ninho das águias de prata” dos Afonsos. Ganharam, a Força Aérea, a história da aviação, a segurança planetária e eu, que a esta altura do campeonato poderia estar flanando nos campos elísios.   

   Imperativo, manda o coração. Ao adentrar o palanque dos convidados, de repente entoava a Esquadrilha tal vibrante pré-cadete de quase cinquenta anos atrás, sem titubear nota sequer no envolvente hino castrense. Os aviões postados, a tropa formada, os uniformes azuis, o rápido sobrevoo de aeronaves e o desfile garboso me transportavam a idos sonhos juvenis momentaneamente revivenciados. O Hortênsio, o Cidade, o Lino, o próprio Malagutti, contemporâneos meus na senda aeronáutica, representavam elos afetivos com a maturidade irrevogável.

    Foi bonita a cerimônia. Feliz e nostálgico, descobri serem indesatáveis as paixões autênticas. Fingem ocultar-se, mas mero descuido a reativam, pulsantes, de limbo singular. Parabenizei o caro Malaga, curti coquetel agradável e retirei-me dali imerso em doce encantamento matinal de valiosas reminiscências pessoais. 

   Quase noite, extasiado ainda, acesso mensagem que desvendo temeroso de acusação qualquer, nesta época de bullyings descabidos. Seria o Paca, reclamando de citação em texto recente? O Frazão, furibundo por Sir Frazone? Baci, o cossaco tropical? Buscado o remetente, que elegante me corrige por proclamar “Brasil 3 x Áustria 1, na Copa do Chile, em 1962”, estarreço ao identificá-lo. Peraí, o Breide analisou banalidades deste beócio remido? Atarantado sucumbo a Morfeu, para reaver a razão no dia seguinte.  

   Dou mãos e pés à palmatória, nada havendo a discutir ou ponderar. Com precisão cirúrgica, o reparo resgata o fato de que a vitória brasileira deu-se por três a zero, na Copa da Suécia, em 1958, confirmadas circunstâncias episódicas do gol de Nilton Santos. Deplorável, todavia a gafe serviu para recontatar, malgrado na esfera virtual, o estimado ala do Esquadrão MMM a quem raramente vejo.    

    O Breide inclui-se no rol dos intelectos privilegiados da Turma, que simplifica problemas em qualquer TO. Lembro-me de eventuais desafios racionais lançados em salas de aula, quando invariavelmente acertava na lata, embasbacando a galera. Ostenta as raras virtudes de ser perfeccionista sem ser chato, de descomplicar sem perder tempo, de resolver sem embromar. A lendária aptidão para o tiro, a mão certeira no basquete e no vôlei decerto decorrem de matriz pragmática da sua personalidade, de potencial artilheiro infalível ou piloto de caça mortífero.

     Inspirado no infante Simões, formulador de peculiar teoria, onde intervalando as forragens compêndios filosóficos são ferozmente cortejados por cavalariças de vasta cultura, advogo a tese da corda-tronco existencial operada por quatro categorias de guardas-cavalos: cartesianos, freudianos, românticos e básicos, que tipifico.

    Guardas-cavalos cartesianos, de lógica apurada, o Breide, exploram relações causais para dominarem a cavalhada inquieta; freudianos, ou freud-metafísicos, Damerran, empregam a psicologia animal e mandalas junguianas, sendo igualmente exitosos; românticos, ou árcade-líricos, Dom Coco, encaram da fúria à idolatria dos beiçudos; básicos, ou simples guardas-cavalos, este parvo, debatem-se confusos no meio de habitual tormenta, incapazes de ordenarem o caos encordoado.           

   Ao responder-me, imemorial contingência em ELDs acadêmicos surgiu, produzindo o clarão de grata revelação: paixões juvenis, tal qual a de caçador aéreo, e amizades sinceras, como a dele, se agigantam na perspectiva do tempo e distância implacáveis, indeléveis.    

    Ao dileto Cad Cav 1022/69-72, Breide, especiais saudações deste humilde guarda-cavalo, privilegiado pela atenção generosa do velho amigo “de rancho”.


Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2014

Cad Cav 1039/69-72, Nilo Obá, enrolado na corda-tronco.{jcomments on}