ETERNOS HERÓIS FIDALGOS

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Atribuir o forte espírito de corpo dos paraquedistas militares a meros clichês reforça  suposições apressadas. Reconhecer e admirar o peculiar entusiasmo dos guerreiros alados anima o imaginário dos exércitos ao redor do mundo, desde o emprego original de tropas aeroterrestres, em bases maciças, na 2º Guerra Mundial, berço da mística gloriosa desses Ícaros surgidos dos céus para surpreender – como me surpreenderam na sexta-feira, 11 de março.      

   Na semana anterior, os coronéis Pellegrino e Amilcar convidaram-me para encontro no Clube Militar, na data citada, coincidindo confraternização no Posto Copacabana da SIP/1 e reunião da 3C, no mesmo local, três eventos imperdíveis. Egresso no curso da dita confraternização, adentrei a sede da Lagoa a tempo da Canção da Cavalaria e de rever companheiros diletos, em choques de estribos típicos à alma cavalariana, heroica e forte. Finda a tradicional CCC – Cavalo, Cultura e Competência -, rumei ao almoço da Brigada dos Afonsos.     

   Ao longe, ecos musicais prenunciavam a efervescência da verdadeira ZL instalada no andar superior, onde descerrado cenário festivo refulgia subgrupo de nuances institucionais insuspeitas. Da intensidade notória do orgulho de afiliação, atual ou pretérita aos quadros aeroterrestres, seria redundante discorrer tamanha a expressividade daqueles mais de cem presentes – oficiais e praças - irmanados através da energia de experiências comuns, amor ao Exército e à inesquecível Brigada. Da amizade, símbolo maior da coesão, emanava componente visceral ao espectro de valores formativo do espírito de corpo fantástico. Mas algo pairava no ar além dos velames da fraternidade indestrutível e da aura exclusiva aos afilhados de São Miguel Arcanjo: a fidalguia sincera e desinteressada.  

     Ao chegar, acorreram companheiros a cumprimentar-me em festival de gentilezas advindo, sem dúvida, de generosa conformação do etos paraquedista. Eu, cavalariano humilde, pé preto transitado em julgado, percebi-me logo à vontade tal autêntico cultor das lanças cruzadas, nas baias ou garagens de esquadrões celebrando conquistas e vitórias. No palco, os acordes agradáveis executados por músicos da Brigada alegravam o ambiente já animado por reencontros, apresentações e demonstrações de camaradagem intensa. 

   O céu de brigadeiro da tarde amena inspirava lançamentos na memória afetiva, que a exibição de breve filmete sobre cerimônia de brevetação recente acirrou e transportou-me a idos longínquos, quando imaginei integrar uma daquelas formaturas de simbolismo marcante. Em 1975, ainda segundo-tenente, após cerca de um mês sendo submetido a exames e exigências variadas, sucumbi ante a destinação de apenas três vagas, na Cavalaria, a dois majores e a um capitão; em 1985, quase major, infiltrei-me numa área de estágio prioritária a concludentes da EsAO, sendo desligado na prova de aterragem, véspera do salto inicial. Maktub.

   O ápice da reunião veio no vibrante entoar coletivo da belíssima Eterno Herói, a canção dos paraquedistas capaz de arrepiar o mais insensível dos mortais, com a introdução da chamada no avião para o salto, a letra empolgante e o fecho conciso. Naquele momento lembrei, saudoso, do Gen Newton Lisboa Lemos, o autor da canção que conheci e muito admirava na sua postura elegante, invejável cultura e conversa atraente, um autêntico cavalheiro que a área de inativos e pensionistas propiciou-me o privilégio da aproximação pessoal.  Aventei comigo a hipótese: estaria o DNA aeroterrestre suscetível à fidalguia do general Lemos? Pus-me a refletir, amparado em indícios consistentes. 

    O Gen Acrísio, antigo estimado Águia Uno, há tempos concedeu-me brevê honorário; os convites gentis dos Cel Pellegrino e Amilcar; o brinde sorteado ao Cel Souto que me repassou; a recepção calorosa e o reviver de ligações fraternas, tudo fortalecia as conjeturas, confirmadas no inquestionável profissionalismo, liderança e fidalguia do atual Comandante da Brigada de Infantaria Paraquedista, Gen Abrahão.   

     Pari passu o desprendimento, a coragem, a força e a fé, o sopro do entusiasmo divino, cqd, privilegiou lugar nos corações paraquedistas ao cavalheirismo, à elegância e à amizade.

    Excelentes saltos, velames abertos e aterragens perfeitas aos eternos heróis fidalgos!

 

Rio de Janeiro, 14 de março de 2016.

Cel Cav Nilo, 85/3, paraquedista honorário.{jcomments on}